quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Saudosa infância

Quando eu nasci, em meados dos anos 80, meu pai saiu correndo pela vizinhaça para anunciar meu nascimento - momento menino Jesus. Bateu em todas as portas dizendo que era uma linda menina.

Modéstia à parte, acho que foi um dos dias mais felizes da vida dele. E daquele dia em diante aquele hippie de roupas coloridas era pai. Não sabia muito bem o que fazer com o título a ele entregue, mas assumiu o posto com maestria.

Enquanto meu pai vivia seus momentos de artista, minha mãe trabalhava para custear os devaneios dele. Uma família estranha essa minha.

Na casinha da Antônio Bezerra, 64, éramos felizes e não sabíamos. Ali não tinha luxo, os móveis eram coloridos (a geladeira era amarela), mas tínhamos o básico, uns aos outros.

No domino de manhã ele conprava mortadela fresquinha e tomávamos com o café da mamãe. A casquinha sempre era crocante.

O quintal era uma diversidade de opções para a minha fértil imaginação. Podia ser a floresta, o espaço, o ateliê, o que eu quisesse que fosse.

Queria que a minha vida voltasse a ser o meu quintal. Nele eu era rainha, tinha a proteção dos meus pais, e toda a alegria que uma criança pode ter. Corria, corria muito, pois sabia que ao primeiro grito, alguém apareceria com um band-aid para colocar no machucado.

Na vida adulta os machucados são constantes, mas a forma de lidarmos com eles não tem mais a criatividade e desenvoltura que tínhamos quando éramos criança.

Fechei os olhos e consegui ver a mesa do café da manhã do domingo. Que saudade da minha família completa, que saudade do meu pai.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O tempo

Fazia tempo que não escrevia aqui. Já tinha até esquecido da existência do blog.
Mas depois de ler um texto do Alê, lembrei do blog.

Comecei a escrever em 2005. O motivo? Um carinha que me apaixonei que tinha blog. Era uma maneira de mostrar para ele que tínhamos muita coisa em comum. E foi através do tal carinha que conheci o Alê.

O cara é muito bom no que faz. Acompanhei diversas tentativas de blog até ele chegar no Poltrona.
Ficamos noites e noites conversando. Eu sofria de insônia, ele também. Me deu conselhos, interferiu na minha vida, assim como eu na dele.

Fui conhecer o Alê pessoalmente no nascimento do filhote dele. Engraçado visitar o filho de alguém que eu nunca vi. Mas isso não foi problema. Sua esposa foi de uma simpatia ímpar, e o filhote era lindo e saudável.

Hoje me dei conta que isso faz 3 anos.

Fiquei triste em ler o último post do Alê. Cara, não deixa a peteca cair. Torço muito, muito, muito, por você.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ciberlove

No quarto esfumaçado pelo cigarro que consumia compulsivamente, Douglas digitava frenético.

- Oi, minha deusa. Não parei de pensar em você um só minuto. Quero sentir seus lábios, sua pele, sua mão passando pelo meu corpo como se estivesse mapeando o meu corpo. Ai, que vontade de você.

- Ai, meu amor. Conto os dias para falar com você. Ontem te esperei a tarde toda.

- Não pude. Tereza anda muito desconfiada. Toda vez que venho ao computador, ela corre atrás. Agora estou só. Ela foi ao shopping. Quando é assim se demora a tarde toda...Escrevi um poema pra você, sabia?

- Manda, manda, manda.

Todo dia passavam horas trocando juras de amor.
O único incoveniente; ele mora em São Paulo, ela em Manaus. Nunca se viram, mas trocavam juras de amor eterno. E quem os visse conversar, jurava que era amor de infância.

Era uma tarde de domingo chuvoso. Tereza sentou-se próximo ao computador quando ouviu um chamado do messenger.

Foi até o computador e leu a frase: "Meu amor, conto os dias para sua chegada!".

Vacilo da inexperiência com amantes.

Tereza naquele momento era Douglas. Passou mais de duas horas sendo o marido.

Terminou a conversa dizendo "Cada dia que passa te amo mais". Maximizou a tela e deixou as letras o maior que conseguiu. Ficou olhando aquela conversa. O marido era incapaz de lhe dizer qualquer coisa que lembrasse amor. Mas para aquela estranha, era um doce.

Levantou-se da cadeira. Abriu o guarda-roupa do marido, pegou o revólver e o colocou na boca. O sangue jorrou na tela.


-- Jorge --

Jorge entrava todo dia para encontrar Douglas. Nunca mais o viu online. Não pensou duas vezes, entrou na sala de bate papo e conheceu Alcídes.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Prometo voltar

Não sei o que houve comigo nesses últimos tempos. Sei apenas que abandonei a escrita. Ultimamente tenho escrito em 140 caracteres, não mais que isso.

Estou com saudade de mim. Estranho, não?

Tenho saudade de ter tempo para escrever.

E se escrevendo eu era eu, faz tempo que não me vejo.

Prometo me encontrar esta semana.

E se ainda tiver alguém aí, eu volto.

Se não tiver, volto mesmo assim. Afinal, que saudade de mim!

domingo, 5 de julho de 2009

Trilho

Estação Santa Cecília - São Paulo.

A chuva caía gelada no corpo desnudo sentado no chão da rampa de acesso ao metrô.

O batom estava borrado, assim como o lápis de olho denunciava que aquela maquiagem havia sido feita na noite anterior.
As roupas cheiravam cigarro e bebida. O coque despenteado deixava apenas uma mecha de cabelo caída na face.

Era de se impressionar que alguém conseguisse ficar ali no chão gelado vestindo apenas uma vestido tomara que caia.

Chorava copiosamente. As pessoas apressadas para o trabalho olhavam com piedade mas eram incapazes de pararem para ajudar.

Um senhor de aproximadamente 72 anos se aproximou e fez a pergunta que no íntimo todos se faziam, mas ninguém teve coragem de perguntar:

- O que houve?

A pergunta fez com que ele chorasse mais ainda. O senhor acompanhou o choro e lhe cedeu seu lenço para que secasse suas lágrimas e finalmente dissesse o que estava ocorrendo.

- A vida deixou de ter sentido pra mim. Bebi a noite toda, usei todas as drogas que se poderia usar, tentei de tudo para esquecer a minha sorte, mas de nada adiantou. Continuo sentindo uma dor enorme dentro do meu peito, parece que está tudo dilacerado dentro de mim. É como se o mundo ficasse em silêncio e esperasse que eu respondesse algo que não sei como responder. Eu estou morto, o senhor sabe o que é estar morto aos 29 anos?

- Não estou lhe entendendo...

- Eu estou morto, senhor. Fiz da minha vida uma montanha-russa de adrenalina pura. Vivia um dia sem saber como acabaria, vendi meu corpo, minha alma, minha vida. Minha mãe está em Quixeramobim esperando eu voltar com dinheiro de São Paulo. Mal ela sabe que sou um travesti, que ganho a vida dando o meu rabo para quem pagar mais. Ela acha que eu sou estagiário de um banco...

E assim que terminou de falar, saiu correndo, deixando para trás sua bolsinha de mão.
Desceu as escadas correndo, atravessou a catraca por cima. Os seguranças tentaram alcançá-la sem sucesso. Assim que chegou no local de embarque, se jogou nos trilhos.

Dentro da bolsinha de mão havia um trident, um batom vermelho, e um exame de sangue - HIV positivo.

Sinopse

Sinopse:
A menina legal e descolada que tem um grande amigo inteligente, divertido, que gosta de moda e sabe se vestir bem, fala com fluência e desenvoltura, gosta de ouvir boa música e ir a bons restaurantes, mas é gay.
A família dele não pode sonhar que ele é gay. Ele nem parece gay.

Numa festa familiar, ele leva a amiga, e em pouco tempo as tias a chama de sobrinha, a mãe dele vira sua mãe, o irmão também é seu, os sobrinhos a chamam de tia, e todo mundo diz que formam um lindo casal.

Saem da festa rindo da percepção alheia e caem numa balada gay.
Dançam, bebem, dão risada.

Ela vai embora com mais um cara que não vale um centavo.
Ele beija um que conheceu na noite.

Jamais ficariam juntos, ela não é lésbica.

E mais uma vez surge a pergunta:

Por quê os melhores são gays?

domingo, 28 de junho de 2009

Facebook, orkut, twitter e afins

Uma pessoa que nunca me viu pessoalmente disse que eu sumi. Se isso fosse nos anos 80, seria considerada louca. Como alguém que nunca me viu pode dizer que eu sumi?
O que sumiu foi minha vida “cibersocial”.

Não tenho tido muito tempo de ficar no Messenger, não tenho atualizado o blog, não consigo atualizar o twitter, enfim, essas coisas.
Estou quase cometendo suicídio tecnológico.
Vivi muitos anos sem essas futilidades, e vivi muito bem. Hoje se tem tanta informação, tanta tecnologia, que fica difícil administrar a vida. Bizarro!
Você leu aquele e-mail?
Você viu que fulano está namorando? Mudou o status no Orkut e no facebook.
Eu soube da morte do Michael Jackson pelo twitter, e você?
Você já baixou aquele vídeo novo do ciclano?

Acho que as pessoas passam tanto tempo na internet, que está cada vez mais difícil relacionarem-se.
Sou adepta do contato físico, do bar, das risadas ao vivo ao invés de um “rs” , “kkk”, “hehehe”, “hahaha”...E ainda ter que ouvir alguém comentar que determinada pessoa que ri “kkk” – que é risada de adolescente – é imaturo.

Cara, o Michael Jackson morreu. Que coisa, não?

Junto com ele morre um tempo em que eu tinha medo da capa do vinil de Thriller, que eu gravava as músicas da rádio com uma fita cassete, vídeos da MTV (depois de colocar Bombril para o canal 32 pegar) em VHS.
O tempo passa, o tempo voa, e a tecnologia que teria que ajudar, cada vez me irrita mais.

sábado, 20 de junho de 2009

Dona Flor

Toda mulher, no fundo, bem lá no fundo, gosta de um Vadinho. É difícil aceitar esta conclusão, mas é verdade.

E depois de assistir a peça "Dona Flor e seus dois maridos", a conclusão fica mais clara.
A mulherada vibrava com Vadinho e ria demais do Teodoro. Impossível não se encantar com um Vadinho como Marcelo Farias, que passa quase toda a peça seminu. Aliás, um ótimo atrativo para todas as mulheres presentes. Difícil prestar atenção em outra coisa que não no homem com bunda linda desfilando pelo palco.
E eu que não dava um centavo pelo ator, mudei completamente de ideia. Já Carol Castro é exatamente o que eu sempre pensei - medíocre. Ao lado de Marcelo Farias e Duda Ribeiro, a atriz passa a ser mera coadjuvante.
E sobre a mulherada gostar de um Vadinho, é verdade meninos. Na saída da peça todas comentavam sobre isso. Quem nunca se apaixonou um bom cafajeste mulherengo que atire a primeira pedra.
Toda mulher quer segurança, carinho, um homem fiel, e blá, blá, blá, mas sempre está apaixonada por um bom canalha.
A peça tem sua última apresentação em São Paulo no dia 05 de julho. Vale a pena ir.